Quando o cliente terceiriza a escolha, a marca precisa disputar o algoritmo

No agentic commerce, o resgate deixa de depender da lembrança do consumidor. Assistentes autônomos passarão a orquestrar compras, benefícios e recompensas. A fidelidade, agora, será vencida antes do clique.

Por Michel Serebrinsky

A próxima disputa da fidelidade será pela preferência programada.

O avanço do agentic commerce, em que assistentes autônomos pesquisam, comparam, recomendam e, em alguns casos, executam compras em nome do consumidor, muda a lógica do relacionamento entre marcas e clientes.

Quando o consumidor deixar de escolher sozinho

Durante anos, os programas de fidelidade dependeram de uma premissa simples: o consumidor lembraria do saldo, entraria no aplicativo, compararia opções e faria o resgate.

Essa jornada já era frágil. Agora, tende a ficar ainda mais intermediada.

Se o assistente pessoal do cliente passa a decidir qual benefício usar, onde comprar e qual recompensa maximiza valor, a marca precisa deixar de falar apenas com pessoas. Terá de ser legível, relevante e confiável também para agentes.

Mas o que acontece quando a escolha deixa de depender somente do consumidor?

O movimento ainda está em construção, mas os sinais são claros. Uma pesquisa da Adobe com consumidores dos Estados Unidos mostrou que 39% já utilizaram inteligência artificial generativa em compras online e 53% planejavam fazer isso no mesmo ano.

A Adobe também mostra que 43% dos clientes aceitariam interagir com um concierge ou agente de inteligência artificial oferecido por uma marca.

O resgate se torna uma decisão automatizada

Para o CMO e o COO, a implicação é direta.

O resgate se torna uma decisão automatizada, baseada em contexto, preferência, disponibilidade, preço, conveniência e confiança.

O consumidor talvez não pergunte mais:

“O que posso resgatar?”

Ele perguntará ao agente:

“Qual é a melhor opção para mim agora?”

A marca que não tiver dados estruturados, regras claras e uma proposta de valor fácil de interpretar poderá ficar fora da recomendação.

Um mercado que já tem escala

Esse cenário atinge um mercado relevante.

No Brasil, empresas associadas à ABEMF faturaram R$ 21,9 bilhões em 2024, com 920,6 bilhões de pontos e milhas emitidos e 803,5 bilhões resgatados.

A escala existe. O desafio é transformar essa escala em utilidade percebida.

O risco é grande para programas que cresceram como acúmulo, e não como inteligência. Pontos parados, catálogos genéricos e experiências desconectadas tendem a perder espaço quando um agente puder calcular, em segundos, qual benefício faz mais sentido para cada situação.

A lealdade automatizada será menos emocional no momento da escolha, mas continuará muito dependente da confiança construída antes dela.

Personalização deixa de ser diferencial

A Deloitte já indica que os consumidores querem recompensas mais personalizadas: quase três em cada quatro entrevistados afirmam desejar benefícios de fidelidade personalizados.

A Antavo mostra que programas de loyalty seguem como alavanca de retorno: 92,7% dos responsáveis por programas que medem ROI reportam resultado positivo, com retorno médio de 5,3 vezes.

A conclusão não é que todo programa funciona. É que os programas bem desenhados funcionam melhor quando combinam dados, experiência e capacidade de adaptação.

Sua marca está preparada para ser interpretada por agentes?

O papel da marca, portanto, muda.

Ela precisa alimentar o ecossistema com informações consistentes, ofertas contextualizadas e benefícios que façam sentido fora de uma campanha específica.

Precisa saber se o cliente valoriza:

  • economia;
  • acesso;
  • conveniência;
  • status;
  • experiências;
  • ou tempo.

E precisa organizar essas informações de maneira que os sistemas consigam entender, comparar e recomendar.

No agentic commerce, fidelidade é a capacidade de estar presente na melhor decisão possível.

Quem tratar programa de pontos como estoque de prêmios ficará dependente da atenção humana. Quem tratar loyalty como infraestrutura de dados, preferência e experiência terá a chance de ser escolhido mesmo quando o consumidor não estiver olhando.

O futuro do resgate será menos manual, mais assistido e, em breve, mais autônomo.

Quando o agente comprar pelo seu cliente, ele terá algum motivo para escolher você?

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