O custo de pedir licença

Empresas cobram iniciativa de equipes que ainda precisam subir decisões demais.

Por Tati Wong

Quando uma equipe perde ritmo, a palavra “engajamento” aparece rápido. Vêm pesquisas de clima, conversas sobre motivação, ações de reconhecimento. Algumas ajudam.

Mas, antes delas, eu gosto de olhar para uma questão mais prosaica:

Quanto esforço essa equipe gasta para conseguir trabalhar?

Quem decide? Quem aprova? Quantas pessoas precisam opinar antes de algo avançar? O que realmente é prioridade? Em que situações alguém pode seguir sem pedir autorização?

São perguntas de gestão, embora muitas vezes apareçam disfarçadas de problema de comportamento.

O problema é falta de engajamento ou excesso de obstáculos?

A Gallup registrou 32% de profissionais engajados no Brasil em 2025, acima da média global de 20%.

O dado chama atenção por outro motivo: mesmo num país que aparece relativamente bem na comparação, a maior parte das pessoas continua fora da categoria de engajados.

O relatório de 2026 da Gallup também mostra pressão sobre quem lidera. Globalmente, o engajamento dos gestores caiu de 31% em 2022 para 22% em 2025.

É difícil ignorar esse número quando tanta responsabilidade pela experiência do time termina na mesa dessas mesmas pessoas.

Na operação, o problema aparece de forma muito concreta.

Uma aprovação que sobe três níveis leva tempo. Cinco aprovações levam mais. Uma prioridade que muda sem que outra saia da fila cria uma equipe permanentemente atrasada. Um gestor que precisa validar cada detalhe logo vira gargalo e, quase sem perceber, ensina o time a devolver decisões.

Depois, cobramos protagonismo.

Autonomia precisa de contorno

Tenho uma visão bastante prática sobre autonomia. Ela precisa de contorno.

As pessoas precisam conhecer o objetivo, entender o risco, saber quais critérios orientam uma decisão e onde termina sua margem de ação.

Sem isso, “seja protagonista” é só uma frase bonita entregue junto com a responsabilidade.

Esse tema é especialmente sensível em negócios como o nosso. Promoção tem datas que não se movem, múltiplos parceiros, cliente, tecnologia, jurídico, criação, atendimento e uma quantidade considerável de imprevistos.

Se cada escolha depender de uma única liderança, a velocidade da operação fica limitada à agenda dessa pessoa.

Por isso, uma das funções mais importantes de quem lidera é tornar-se menos necessário em decisões que o time já pode tomar.

Sua equipe pode decidir de um jeito diferente?

Há também um lado menos confortável: autonomia inclui a possibilidade de alguém escolher um caminho diferente daquele que o gestor escolheria.

Se toda divergência termina em correção e toda falha devolve a decisão para cima, o aprendizado é rápido. Na próxima vez, a pessoa pergunta antes.

Esse pequeno pedido de licença, repetido dezenas de vezes por semana, tem um custo que raramente aparece numa planilha.

Pode aparecer, porém, no prazo, na energia do time e na quantidade de boas ideias que nunca chegam a ser testadas.

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